Depois que a sombra entrou não vi nem ouvi mais nada, até que do vento o clamor de um grito distante abalou minha alma"
A noite fria ainda agora me fazia tremer na cama. Levantei-me, pra pegar um cobertor e me cobrir. Observei o aspecto escuro da cabana. Era madrugada, e a lua amarela se azulava com os verdes vidros da janela. Caminho com passos vagarosos até o guarda-roupa. Agora a pouco me assustei com uma sombra que vi no catre de minha cama. Era só um pano. Eu que com minha consciência de adulto nunca acreditei em vultos, fantasmas ou espíritos, não deveria me assustar com uma coisa dessas, que bobagem. Pego logo o cobertor e vou me deitar. É hora de fechar os olhos quando ouço um barulho na porta. A chuva havia acabado, mas o vento forte ainda balançava as árvores lá fora. Talvez um galho, empurrado pelo vento. Viro-me para a parede e atrás de mim ouço o barulho novamente. Duas batidas, e um barulho suave, como se algo se escorasse no beiral da porta para espiar de fora. Continuei virado para a parede, enquanto na minha mente vinham temores horríveis. Segurei-me pela sombra mais um instante, mas do meio da lua o surgir do barulho me atormentou amargamente mais uma vez. Derrepente, por meus instintos e por minha própria irritação, gritei bem alto:
-Quem é?!
Uma gargalhada bem baixinha veio, e ao mesmo tempo uma pancada de barulho imenso. POW! Me levantei imediatamente, enquanto todos os pêlos de meu corpo se arrepiavam com um calafrio imenso. Olhei para a porta e vi a luz da lua passar por seus umbrais. O vento havia parado, e o silêncio reinava. A chuva, que antes se transformara em uma garoa fraca, havia cessado por completo. Na noite, só dominava a escuridão. Parecia simplesmente que na terra não havia mais sequer um humano. Eu estava só, pois até mesmo a lua partia agora. As nuvens antes parciais, agora dominavam o céu negro. Eu via isso por uma pequena abertura naquela parede de barro. Voltei à minha velha cama de madeira, e me sentei. O medo infantil que me dominara agora se ia. Mas, o que fora aquilo? Eu ouvira aquilo realmente? A porta continuava lá intacta. Devido ao silêncio eu sabia que ninguém se encontrava próximo. Talvez minha mente me pregando peças. Resolvi me levantar. Deveria abrir a porta. Peguei uma velha faca, e fui para sua frente. Meu sangue pulsava em minhas veias, e embora não pudessse vê-lo correndo pelas artérias, sentia como se passasse em frente a meus olhos e se espalhasse pelo chão. Eu era uma extensão da porta, e sentia a faca em minhas mãos. Na minha mente, ponta de metal da arma ressoava como se quisesse perfurar algo maligno. Abri!A escuridão veio, e dominou a escuridão tudo. Do interior do vento que começou novamente, a luz azulada ofuscava as trevas com um pequeno brilho. Nada se via além da luz. Armei-me em posição de ataque, quando do silêncio a voz forte se espalhou pelo meu espaço:
-Homem que tudo vê e nada sabe! Tu que abriste a porta ouvirá agora a voz da morte!
O medo dominou a minha alma, de modo que o temor não poderia mais ser uma extensão de meu corpo, pois agora eu sou uma extensão do medo. Grito alto, respondendo a voz:
-Quem é você e o que quer?
-Eu sou o devorador de sonhos. Agora, entrarei em tua casa e cearei contigo. O preço de minha companhia será tua alma. O preço de você ter visto a luz azulada será tua via.
-Por quê? O que eu fiz pra que merecesse a morte?
-A morte não escolhe almas, nem o devorador de sonhos escolhe vidas. Mas aquele que abrir a porta será tragado para as trevas e levado. Sua voz não será ouvida, e sua lágrima se extinguirá no silêncio. Do meio de seus gritos só se ouvirá outros gritos. Ele não conseguirá ouvir sua própria voz, por causa das vozes que o rodeiam. Sua mente será perdida, e tudo que restará será um grande redemoinho girando, aonde as vozes dos que conhecemos um dia ecoam distante. Você girará e cairá em um abismo profundo pela eternidade!
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